Lista de sugestões de filmes interessantes. Cada postagem traz foto, breve sinopse, censura, diretor, distribuidora, elenco, responsáveis pelo roteiro, musica e fotografia. Com o eterno deslumbramento de fã apaixonada, By Star Filmes acredita que o cinema emociona, ensina e é a melhor diversão.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Clube de Compras Dallas

Dallas Buyers  Club *
(2013) 117 min (16 anos)

EUA, Texas - Em 1985, o eletricista e caubói Ron Woodroof leva uma vida desregrada, pois é viciado em sexo, álcool e outras drogas menos lícitas. Perseguido por apostadores de rodeio que tinham sido enganados por ele, Ron prefere ser preso para fugir dos compromissos. No dia em que desmaia ao levar um choque elétrico, durante uma emergência no trabalho, o caubói recebe uma notícia bomba no hospital: seu sangue deu resultado soropositivo para HIV. De acordo com o médico, Ron tem mais uns 30 dias para viver. Seu estilo de vida, regado a álcool e drogas, diminui sua imunidade e piora o prognóstico. Irado com a notícia, indignado com a ideia de ter uma doença de homossexuais, Ron sufoca seus sentimentos em mais uma farra monumental.

A seguir, o caubói do Texas decide lutar por sua vida e procura se informar sobre as novidades no tratamento da doença. No hospital local há uma pesquisa incipiente com o antiviral AZT, que seria fornecido pelo laboratório para metade dos pacientes, enquanto os outros receberiam apenas um placebo - o que talvez fosse até melhor - já que o AZT provoca fortes efeitos colaterais. Primeiro Ron suborna um enfermeiro para receber o antiviral, depois, quando fica impossível conseguir a droga, ele resolve ir ao México, atrás de terapias alternativas, pois há histórias de sucesso fora dos EUA. O mais difícil é trazer os remédios para dentro do país. 

Rejeitado por seus antigos companheiros, é na comunidade gay que o caubói encontra apoio. Junto com o travesti Rayon, eles fundam o Clube de Compras Dallas, que contrabandeia proteínas, medicamentos e vitaminas para aumentar a imunidade dos soropositivos, mediante o pagamento de 400 dólares mensais. Perseguido pelo governo, comunidade médica e laboratórios, Ron resiste e luta como um leão pelos direitos dos clientes do Clube de Compras Dallas.

Ron Woodroof foi um exemplo de resiliência. Estar debilitado pela doença e ainda encontrar forças para lutar contra todos os obstáculos que o FDA (Food and Drug Administration), laboratórios e médicos colocaram no seu caminho, é coisa para poucos. Matthew McConaughey e Jared Leto também deram duro na composição dos personagens Ron e Rayon, e não foi só na dieta: Matthew perdeu 21 quilos e Jared perdeu 13. Os dois são os principais responsáveis pela força e credibilidade de "Clube de Compras Dallas". Os dois ganharam Oscars e outros prêmios pelo brilhante desempenho.

Curiosidades:
* O orçamento deste filme era tão baixo que foram designados apenas US$ 250 para o departamento de maquiagem. Surpreendentemente, os artistas conseguiram se virar com essa quantia e o "Clube de Compras Dallas" ganhou o Oscar por Maquiagem (Robin Mathews) e Penteado (Adruitha Lee).

* Jared Leto permaneceu a caráter durante toda filmagem. Chegou a sair para fazer compras vestido como travesti num "Whole Foods" local, onde recebeu os costumeiros olhares de curiosidade e desaprovação. Seu simpático personagem Rayon não existiu na vida real, ele é uma mistura de pessoas que influenciaram Ron.

* Ron Woodroof sobreviveu quase 7 anos ao sombrio diagnóstico inicial. Ele atravessou a fronteira do México mais de 300 vezes, trazendo cerca de 500.000 pílulas em seu Lincoln Continental. Ele importou peptídeo T da Dinamarca e alfa interferon do Japão.
O verdadeiro Ron em 16-5-1989

* A irmã de Ron, Sharon Braden, aprovou a escolha de Matthew McConaughey para viver Woodroof: - "Sim, ele tem esse jeito arrogante de Ron!" (Mirror)

Diretor: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Craig Borte, Melisa Wallack
Fotografia: Yves Bélanger
Designer de Produção: John Paino
Diretor de Arte: Javiera Varas
Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Denis O'Hare, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Joji Hioshida, Bradford Cox
Distribuidora: Universal

*** excelente
** ótimo
* bom

Sem Asterisco - interessante

terça-feira, 3 de junho de 2014

Philomena

Philomena * *
(2013) 98 min (10 anos)

Irlanda - A ingênua Philomena Lee perdeu a virgindade e engravidou ainda adolescente. Foi deixada pelo pai aos cuidados das freiras de Sean Ross Abbey, em Roscrea, no coração da Irlanda. Junto com outras mães solteiras, Philomena trabalhava durante longas horas na lavanderia do convento, dirigido pela severa irmã Hildegard, e só podia visitar o filho Anthony uma vez ao dia. Quando ele estava com três anos de idade, foi entregue para adoção, sem que a mãe sequer fosse consultada.

Philomena casou, teve uma filha, envelheceu, e jamais deixou de pensar em Anthony, embora tenham sido frustradas cada uma das tentativas para encontrá-lo. As coisas começam a mudar quando sua filha Jane pede ajuda a um jornalista para descobrir o paradeiro do irmão. Recentemente desempregado, o escritor Martin Sixsmith deixa de lado suas pesquisas sobre a história russa para se engajar na busca pelo filho perdido de Philomena Lee, elaborando um artigo de "interesse humano", gênero que ele considerava inferior. Mas a convivência com Philomena toca o coração do cético jornalista.

Refeitório em Sean Ross Abbey na década de 50
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" - Jesus podia estar pensando em Philomena Lee quando pronunciou essas palavras no Sermão da Montanha. Poucas pessoas parecem tão desprendidas, simples, donas de uma fé tão viva, quanto a gentil irlandesa. Judi Dench está magnífica vivendo essa mulher amorosa, sem fel ou malícia no coração, assim como esteve soberba interpretando aristocratas autoritárias. "Philomena" tem a qualidade costumeira das obras de Stephen Frears; o diretor sabe prender a atenção e contar uma historia. Talvez tenha exagerado um pouco na pintura da irmã Hildegard, interpretada como uma vilã empedernida e antipática até o último instante. Parece que o filme tomou algumas liberdades com os fatos, e o encontro da religiosa com o jornalista foi uma delas.

Curiosidades:
* A irmã Hildegard McNulty morreu em 1995 e o jornalista só começou a investigação em 2004.

* Martin Sixmith, na vida real, considera-se agnóstico e não ateu, como é mostrado no filme.

Diretor: Stephen Frears (Ligações Perigosas, O Retorno de Tamara, A Rainha)
Anthony, sua amiga Mary, e a verdadeira Philomena Lee
Roteiro: Steve Coogan e Jeff Pope, baseado no livro "The Lost Child of Philomena Lee", de Martin Sixsmith
Musica: Alexandre Desplat
Fotografia: Robbie Ryan
Designer de Produção: Alan MacDonald
Diretores de Arte: Rod McLean, Sarah Stuart
Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Anna Maxwell Martin, Michelle Fairley, Sean Mahon, Peter Hermann
Distribuidora: Paris Filmes

*** excelente
** ótimo
* bom

Sem Asterisco - interessante

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Álbum de Família

August: Osage County *
(2013) 120 min (12 anos)

EUA - O verão em Oklahoma pode ser sufocante. E ainda mais sufocante é a convivência com Violet Weston, mãe de três filhas e esposa de Beverly, um professor e poeta que recorre à bebida para suavizar a árdua existência ao lado de sua cara metade. "A vida é muito longa", repete Bev, citando T. S. Eliot. 

Violetas são flores de fácil cultivo e costumam ser associadas à delicadeza e humildade. Nada pode ser mais diferente do que o temperamento da sra. Weston, uma mulher enfurecida com a vida, crítica com as pessoas e um tanto indulgente consigo mesma. Nem o tratamento para um câncer na boca dobrou a ácida senhora, uma sobrevivente convicta. Beverly contrata a suave indígena Johnna Monevata para cuidar da esposa e desaparece. Passados cinco dias, o xerife do condado vem avisar que o barco de Bev foi encontrado no lago e que ele se afogou.

Barbara, Karen e Ivy, as três filhas do casal, se reencontram depois de uma longa separação. Mattie Fae Aiken, irmã de Violet, também chega para o enterro, junto com o marido. Seu filho Charles só aparece quando a família já voltou para casa, depois do funeral. Cobranças e revelações tornam o ambiente cada vez mais tenso. Violet não deixa pedra sobre pedra quando se trata de provocar o próximo.

"Álbum de Família" ganha muitos pontos no quesito elenco. Onde Meryl Streep foi buscar inspiração para criar megera tão virulenta? Poderia ser na desagradável Martha de "Quem tem medo de Virginia Wolf". Já Benedict Cumberbatch surpreende num papel tão diverso de seus imponentes personagens anteriores, vivendo o desajeitado Little Charles Aiken, constantemente humilhado pela mãe Mattie Fae. Julia Roberts interpreta Barbara, a única filha capaz de enfrentar a violenta matriarca, e que, por seu próprio temperamento agressivo, também está prestes a perder o marido e a filha adolescente. Os pecados dos pais se repetem nos filhos. Eis uma família que só ficaria bem num retrato voltado para a parede, embora experimente alguns raros momentos aprazíveis. Um filme para se conferir e que pode nos ajudar a identificar e polir as asperezas de nossa personalidade. Afinal, quem quer ser uma Violet Weston?

Curiosidade:
* "Life is very long" (A vida é muito longa) - a citação da abertura falada por Beverly Weston - pertence ao poema "Hollow Men", de T. S. Eliot, mas é emprestada do romance de Joseph Conrad "An Outcast of the Islands" (um pária das ilhas) (1896).

Diretor: John Wells
Roteiro: Tracy Letts
Musica: Gustavo Santaolalla
Fotografia: Adriano Goldman
Designer de Produção: David Gropman
Diretora de Arte: Karen Gropman
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Sam Shepard, Margo Martindale, Juliette Lewis, Julianne Nicholson, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Ewan McGregor, Dermot Mulroney, Abigail Breslin, Misty Upham
Distribuidora: Imagem Filmes

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

domingo, 25 de maio de 2014

A Vida Secreta de Walter Mitty

The Secret Life of Walter Mitty * *
(2013) 114 min (10 anos)

EUA - Há dezesseis anos, Walter Mitty trabalha no subsolo de um moderno edifício em Manhattan, Nova Iorque. Ele é o diretor do departamento de negativos da revista "Life". Sua especialidade é encontrar o melhor aproveitamento para as imagens enviadas de todo mundo. Entre seus fotógrafos favoritos está o experiente Sean O'Connell. O genial artista não tem celular ou endereço e ainda utiliza maquinas analógicas para capturar os momentos mágicos de suas viagens.

Walter é um homem metódico, que controla as despesas numa planilha e, desde que o pai morreu, divide com a irmã Odessa os cuidados com a mãe Edna. Mal completara 17 anos, Mitty deixou de lado o skate, os cabelos cortados no estilo moicano, e empregou-se numa lanchonete. Jamais correu o mundo, como era seu sonho. Talvez por isso, Walter costume desligar-se da realidade com frequência, sobretudo nos momentos de maior estresse, e saia viajando na fantasia. Esse hábito de sonhar acordado causa-lhe constrangimentos diante do insensível executivo encarregado de fechar a revista e de demitir boa parte dos funcionários da publicação novaiorquina.

Mas, no momento, Mitty tem maiores preocupações do que agradar o temível executivo barbado: ele precisa encontrar Sean O'Connell para descobrir o paradeiro do negativo 25, que se extraviou na última remessa, e foi indicado para ser a última capa da "Life". Sua outra meta é conquistar o interesse de Cheryl Melhoff, a nova funcionária do banco de imagens que frequenta o site de relacionamentos eHarmony. Pelo site, Walter descobre que, além de simpática e bem-humorada, Cheryl tem um cachorro de 3 pernas e um filho pequeno. Pode ser sua maior incentivadora na busca pelo fotógrafo Sean O'Connell.

"A Vida Secreta de Walter Mitty" emociona pela história e sincero desempenho do elenco de atores americanos e de diversas outras nacionalidades. A fotografia de Stuart Dryburgh está deslumbrante. Monocromática na vida rotineira de Walt, é saturada, iluminada, em seus devaneios e viagens reais. As aventuras de Walter cativam e dão uma vontade danada de ir conferir pessoalmente as paisagens da gelada Islândia.

Curiosidades:
* O motorista bêbado do helicóptero diz brincando que "só há 8 pessoas na Groenlândia". Enquanto Walter está na Groenlândia, ironicamente só aparecem 8 pessoas ali.

* "Life" foi uma revista de fotojornalismo publicada entre 1936 e 2007.

* Dada a variedade de paisagens da Islândia, todas as cenas fora dos EUA foram gravadas ali. O diretor queria a maior realidade possível e o mínimo de cenas geradas em computador. 

Diretor: Ben Stiller
Roteiro: Steve Conrad, baseado no conto de James Thurber
Musica: Theodore Shapiro
Fotografia: Stuart Dryburgh
Designer de Produção: Jeff Mann
Diretor de Arte: David Swayze
Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Shirley MacLaine, Kathryn Hahn, Sean Penn, Adam Scott, Adrian Martinez, Marcus Antturi, Kai Lennox
Distribuidora: Fox Films

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Saving Mr. Banks * *
(2013) 125 min (10 anos)

EUA - Walt Disney prometeu a suas filhas obter os direitos de filmagem do livro de P. L. Travers para levar à tela a história de Mary Poppins, a babá mágica. Passados 20 anos, Walt ainda está tentando cumprir essa promessa, mas Pamela Travers resiste à ideia de vender a amada personagem. Enfim, pressionada pelo seu agente, e pelo receio de perder seu lar em Londres, a escritora aceita voar para Los Angeles por algumas semanas, para repassar o roteiro nos estúdios Disney. Qualquer desacordo e a sra. Travers, como gosta de ser chamada, volta para casa sem assinar o contrato.

Walt faz de tudo para agradá-la: voo na primeira classe, limousine com chofer, hotel confortável, cesta de frutas no quarto, um imenso Mickey sorridente sobre a cama, além de balões coloridos e outros animais do mundo Disney. Mas, para a rabugenta escritora australiana, tudo isso pouco importa e ela implica com cada detalhe do roteiro. Walt precisará se desdobrar e desvendar o próprio passado para ajudar Pamela a superar o seu.

Foi um caso de amor à primeira vista. Meu filho assistia "Walt nos Bastidores de Mary Poppins" à noite, enquanto eu escrevia no computador. Olhei para a tela da TV de relance e me deparei com uma rua londrina onde casinhas brancas enfileiradas emolduravam cerejeiras em flor. Tive certeza: vou gostar desse filme. Só não esperava o tanto de emoção que senti, seja pela história da infância de P. L. Travers, quanto por minhas próprias saudades de Walt e seu mundo encantado, que me apresentou aos clássicos da literatura infantil. Os filmes do estúdio da Califórnia iluminaram minha infância. A tal ponto que, quando visitei a Disneylandia, em 1981, já então com 30 anos e dois filhos, me escondi atrás do ombro do meu marido e me debulhei em lágrimas durante o desfile do Mickey, Cinderella, Branca de Neve e todos os outros personagens na parada em Main Street. 

O filme de John Lee Hancock tem ótimo roteiro, desempenhos formidáveis do elenco, sobretudo de Emma Thompson, como P. L. Travers e Tom Hanks (Walt). Pamela-menina é vivida pela encantadora Annie Rose Buckley, em sua estreia na tela grande. Linda fotografia, música, cenários e tudo mais. Imperdível. 

Curiosidade
* Na vida real, Pamela Travers, ou Helen Lyndon Goff, seu nome verdadeiro, detestou o filme "Mary Poppins" a tal ponto que fez constar em seu testamento que não queria nenhum americano envolvido com futuras produções de sua obra, apenas escritores ingleses de nascimento. Mais detalhes no site Mental Floss.

Diretor: John Lee Hancock
Roteiro: Kelly Marcel e Sue Smith
Musica: Thomas Newman
Fotografia: John Schwartzman
Designer de Produção: Michael Corenblith
Diretora de Arte: Lauren Polizzi
Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Annie Rose Buckley, Ruth Wilson, Paul Giamatti, Rachel Griffiths, B. J. Novak, Jason Schwartzman, Kathy Baker, Melanie Paxson, Don DaGradi
Distribuidora: Disney Buena Vista

Walt Disney e Tom Hanks


*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Grande Beleza

La Grande Bellezza * * *
(2013) 141 min (14 anos)

Italia - O escritor napolitano Jep Gambardella chegou a Roma com 26 anos, trazendo na mala a ambição de tornar-se o rei da alta sociedade. Este sonho se realiza logo, na publicação de sua primeira e última obra, "O Aparato Humano". Colunista de um jornal de prestígio, solteiro, colecionador de aventuras românticas, Jep passa a vida entre festas e eventos culturais, rodeado de gente rica, elegante, conservada em plásticas e botox. As pessoas mais próximas do jornalista são Dadina, a anã que é sua chefe no jornal, o escritor Romano e uma divertida diarista. Um tanto entediado, Gambardella sonda um importante cardeal italiano sobre questões espirituais. Antes tivesse procurado um humilde sacerdote de aldeia. O príncipe da Igreja só se interessa por receitas culinárias.

Então chega a Roma certa religiosa centenária, precedida por uma fama de santidade. Ela dorme no chão e se alimenta de raízes. Dadina encarrega Jep de encontrar a missionária, que concorda em conceder uma raríssima entrevista, por ser fã do livro "Aparato Humano". No terraço do apartamento de Gambardella, vizinho ao Coliseu, aves migratórias repousam antes da viagem, ante os olhos contemplativos da religiosa.

Assistir "A Grande Beleza" impressiona, pois Roma é capturada em total esplendor artístico, em imagens de palácios, esculturas, jardins encantadores onde correm crianças e freirinhas. Os créditos finais chegam à tela junto a um passeio de barco pelo rio Tibre. A trilha sonora é toda belíssima, mas também contagia, dançante, durante a festa de aniversário dos 65 anos de Jep. São magníficos os figurinos e cenários. No site Zingarate podem ser vistas 10 locações do filme. "A Grande Beleza" faz uma crítica risonha a certo estilo de arte moderna, visto como uma experiência infantil, se contrapondo a magnificência das obras clássicas que adornam a Cidade Eterna. Mas o que é essa Grande Beleza que permaneceu oculta aos olhos de Jep e não permitiu que escrevesse o próximo livro? Tendo namorado tantas mulheres, mas sem ter se comprometido com nenhuma, seria o compromisso com uma única companheira, e musa, a solução de seus problemas? Jep parece, momentaneamente, invejar o destino do casal que vai passar a noite em casa, em simples tarefas domésticas.

La Scala Santa
O que seria a Grande Beleza capaz de inspirar o jornalista? O que me ocorreu, ante a busca de sentido de Jep Gambardella, foram as palavras de um escritor antigo, natural de uma província africana do Império Romano - atual Argélia. Depois de converter-se ao cristianismo, Agostinho escreveu: "Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora e aí te procurava... Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandescente e curaste a minha cegueira".  As palavras de Santo Agostinho parecem complementar a cena da religiosa centenária subindo de joelhos a Escada Santa, em direção à imagem de Cristo crucificado. "A Grande Beleza" ganhou o BAFTA e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014.

Curiosidade:
* A Escada Santa foi levada de Jerusalém para Roma no século IV, por ordem de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino. Acredita-se que foi por essa escada, composta de 28 degraus em mármore branco, que Jesus subiu para ser interrogado por Poncio Pilatos, antes da Crucificação.

Diretor: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino & Umberto Contarello
Musica: Lele Marchitelli e Trilha sonora no IMDB
Fotografia: Luca Bigazzi
Designer de Produção: Stefania Cella
Figurino: Daniela Ciancio
Elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Giovanna Vignola, Serena Grandi, Giusi Merli, Isabella Ferrari, Aldo Ralli
Distribuidora: Paramount

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Quinto Poder

The Fifth Estate
(2013) 128 min (16 anos)

O matemático e físico australiano Julian Paul Assange precisa de um parceiro em sua cruzada contra a corrupção dos governos e corporações. No Chaos Computer Club, em Berlim, Assange encontra o jornalista Daniel Domscheit-Berg, que também está interessado em ativismo online. Com um pequeno grupo de cooperadores voluntários, por algum tempo Julian e Daniel tocam juntos o WikiLeaks, um site de denúncias que garante o anonimato das fontes de filmes, fotos e documentos secretos.

Vazamentos do site ganharam a primeira página dos jornais. O primeiro alvo foi um banco suíço envolvido em atividades ilegais. Posteriormente o mundo se espantou com o vídeo do ataque de um helicóptero americano em Bagdá. Durante a ocupação do Iraque, os soldados da nave militar assassinaram 12 pessoas, inclusive 2 jornalistas da agência Reuters. Outros documentos relatavam a corrupção no Quênia e a morte de milhares de civis na guerra do Afeganistão. No final de 2010, foram publicados telegramas secretos das embaixadas dos Estados Unidos ao governo do país. O cerco ao fundador do WikiLeaks apertou e forçou-o a pedir asilo à Embaixada do Equador em Londres, onde Assange vive desde 19 de junho de 2012. 

O assunto é palpitante, os fatos são recentes e alguns ainda frescos em nossa memória, embora o ritmo frenético da abertura de "O Quinto Poder" provoque alguma ansiedade. "Vou conseguir acompanhar essa história?" Não há tempo confortável para assentar os dados iniciais, conectando-os com o que já sabemos. Mas a necessidade de reflexão sobre a neutralidade e independência da rede mundial, impõe-nos o esforço. Quem deseja uma rede controlada por governos e corporações? Os usuários preferem liberdade e transparência. Benedict Cumberbatch, brilhante como sempre, impressiona no papel do excêntrico Julian Assange. Ficam as perguntas: "Herói ou Traidor"? Qual o custo de manter segredos numa sociedade livre e quais os custos de revelá-los?

Curiosidade:
Julian Assange e o ator Benedict Cumberbatch
* Julian Assange enviou email para Benedict Cumberbatch, pedindo que não participasse do filme.

* Wikileaks considerou o filme irresponsável, prejudicial e contraprodutivo. 

Diretor: Bill Condon
Roteiro: Josh Singer, baseado nos livros "Inside WikiLeaks: My Time with Julian Assange at the World's Most Dangerous Website", de Daniel Domscheit-Berg, e "WikiLeaks: Inside Julian Assange's War on Secrecy", de David Leigh e Luke Harding
Musica: Carter Burwell
Fotografia: Tobias A. Schliessler
Designer de Produção: Mark Tildesley
Diretor de Arte: Thomas Göldner, Denis Schnegg
Elenco: Benedict Cumberbatch, Daniel Brühl, Anthony Mackie, Peter Capaldi, David Thewliss, Alicia Vikander, Stanley Tucci, Laura Linney
Distribuidora: Touchstone

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Black Fish - Fúria Animal

Blackfish * *
(2013) 83 min (12 anos)

EUA - Em 24 de fevereiro de 2010, a experiente treinadora Dawn Brancheau morreu depois do show "Dine with Shamu", no parque aquático SeaWorld, na Flórida. Dawn foi agredida pela orca Tilikum, que já havia causado a morte de outras 2 pessoas, anos atrás. Em liberdade, esses fantásticos membros da família dos golfinhos se alimentam de peixes, aves, tartarugas, focas, tubarões e leões marinhos. Quando nadam livres nos oceanos, não há registro de casos de ataques de orcas a seres humanos. O que aconteceu com Tilikum? E por que as orcas em cativeiro vivem tão menos do que aquelas em liberdade?

Em novembro de 1983,Tilikum foi aprisionada no Atlântico Norte, na costa da Islândia, e levada para o Sealand do Pacífico, na British Columbia. O Sealand canadense era um parque modesto, sem nenhuma condição de receber animais de tal porte. À noite, as orcas permaneciam confinadas num tanque mínimo (9 metros de diâmetro e 6 metros de profundidade), no qual precisavam ficar paradas. De dia, sua vida não era muito melhor, pois o treinamento diário incluía privação de alimento. A sociedade das orcas é um matriarcado, o que levou Tilikum ao posto mais baixo na hierarquia do grupo; ele era usualmente agredido pelas fêmeas mais velhas. Em 1991, as orcas mataram Keltie Byrne, estudante de biologia marinha, nadadora e treinadora do parque, impedindo-a de sair do tanque. Em 1992, Tilikum foi enviado ao Seaworld da Florida para servir de reprodutor e o parque canadense foi fechado.

O documentário "Blackfish: Fúria Animal" procura mostrar a crueldade de se separar da família - e manter em cativeiro - animais tão inteligentes, sociáveis, que possuem uma linguagem própria e vivem em grupo toda sua vida. As primeiras imagens do filme são impressionantes e revelam a estratégia das fêmeas para salvar os filhotes, assim como o sofrimento das mães quando eles são capturados pelos caçadores de baleia. Em outro momento emocionante de "Blackfish", as orcas-mães se agitam, tremem, "choram", fazendo vocalizações de longo alcance, para serem ouvidas pelos filhotes desaparecidos. Os cientistas ainda conhecem pouco a respeito dos hábitos e linguagens desses fascinantes animais, mas já é o suficiente para concluirmos que devem ser protegidos e admirados em seu habitat natural. 
RVA

Diretora: Gabriella Cowperthwaite
Roteiro: Gabriella Cowperthwaite & Eli Despres, Tim Zimmerman
Musica: Jeff Beal
Fotografia: Jonathan Ingalls, Christopher Towey
Distribuidora: Universal

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Serra Pelada

Serra Pelada *
(2013) 106 min (14 anos)

Pará - O professor Joaquim não era concursado e, ao perder o emprego, sente-se atraído pelas notícias dos jornais sobre a descoberta de ouro em "Serra Pelada". Em 1980, Joaquim deixa a mulher grávida em São Paulo e ruma para o sul do Pará na companhia do amigo Juliano, que não tem nada que o prenda à cidade grande. A vida no garimpo muda tudo e deixa os homens obcecados. Joaquim só pensa em juntar dinheiro para voltar e dar segurança a sua família, enquanto Juliano, progressivamente, torna-se embriagado pelo poder. Em determinado momento os projetos dos amigos se chocam, o tempo passa e a cada dia fica mais difícil abandonar "Serra Pelada".

O ótimo desempenho do elenco, uma bela fotografia e a notável reconstituição de época são os trunfos de "Serra Pelada". Merece uma conferida, até para provar que nem só de comédia vive o cinema brasileiro. Sophie Charlotte está linda como a grande paixão proibida de Juliano. 

Diretor: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia, Vera Egito
Musica: Antonio Pinto
Fotografia: Lito Mendes da Rocha
Diretor de Arte: Tulé Peak
Elenco: Julio Andrade, Juliano Cazarré, Sophie Charlotte, Matheus Nachtergaele, Wagner Moura, Eline Porto, Jesuita Barbosa
Distribuidora: Warner Bros

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pedalando com Molière

Alceste à Bicyclette
(2013) 106 min (12 anos)

França - Gauthier Valance está no auge de sua carreira, sendo reconhecido em toda parte como o charmoso médico de uma série de televisão. Famoso, rico e entediado, Valance tem a ideia de produzir a peça "O Misantropo", de Molière. Como parceiro ideal, lembra-se do grande Serge Tanneur, que lhe deu bons conselhos no início de sua carreira. Mas Serge desiludiu-se com o meio teatral, do qual critica a hipocrisia, aposentou-se e passou a viver na ensolarada Île de Ré. Gauthier pensa convencê-lo a abandonar a vida reclusa, lhe oferecendo uma novidade: os dois se alternariam no papel de Alceste, o personagem principal, e seu amigo Philinte.

Serge recusa, depois reconsidera e propõe uma condição: um ensaio conjunto de cinco dias, após o qual decidirá se aceita ou não a proposta. Os dois conversam, ensaiam, discutem, andam de bicicleta à beira-mar, visitam casas à venda com um corretor imobiliário, conhecem uma bela italiana de gênio instável e uma atriz de filme pornô. Gauthier Valance está animado e avisa sua assistente em Paris para ir tocando o projeto, mas o futuro pode ser inquietante.

Foram as locações e o trabalho dos diretores de arte o que mais me interessou em "Pedalando com Molière". Os atores são ótimos, mas os ensaios da peça ultrapassaram meu limite de atenção. Contudo, mesmo depois de passados alguns dias, o filme não me saía da cabeça, sobretudo os ambientes aconchegantes, a casa com fachada de pedra e a pintura azul das paredes já envelhecida, uma sala cheia de quadros e livros, iluminada por delicado abajur. Fiquei sonhando com uma casinha à beira-mar e meditando no final inesperado.

Diretor: Philippe Le Guay
Roteiro: Fabrice Luchini, Philippe Le Guay
Musica: Jorge Arriagada
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Designer de Produção: Françoise Dupertuis
Diretores de Arte: Lionel Mathis, Etienne Rohde
Elenco: Fabrice Luchini, Lambert Wilson, Maya Sansa, Camille Japy, Ged Marlon, Stéphan Wojtowicz
Distribuidora: Imagem Filmes

*** excelente
** ótimo
* bom
Sem Asterisco - interessante
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